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terça-feira, 29 de junho de 2010
sábado, 13 de março de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
Quando me basto
Há dias em que me basto, em que me tenho a mim.
Nada dói, nada falha, nada falta.
Os dias bons não são assim.
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sábado, 6 de março de 2010
Conselho
Morde tudo o que te aparecer pela frente
usa tudo como alimento.
As palavras não alimentam,
come a vida e os sentimentos.
.
Nós, as montanhas.
A nossa sombra. O teu corpo, agora meu.
Erguemo-nos como montanhas.
Sairemos da noite, brilhando.
Somos agora relevo no horizonte.
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Amadora
Hinos juvenis em tons amargos.
Suburbios desertos, metálicos.
Vida carregada aos ombros
e sexo vazio enchendo o nada.
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As últimas casas
Mataste a sede e o corpo caiu-te por certo na estrada.
Moravas nem sabes onde, passaste as últimas casas.
.
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Pastor de pedras
Eras pastor de pedras e penedos
que te seguiam fiéis por toda a parte.
Levavas contigo terras altas
e vales que te acompanhavam.
Os rios eram teus amigos
porque lhes trazias
quedas d’água.
Também eu te queria, amigo,
e no meu solo plantava mágoa
porque as pedras andavam contigo
e do pó colhia eu nada.
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
13 dias do ano
Fiz as contas.
Não foram muitas as vezes que te vi.
Em que estivemos juntos.
E que importa isso?
Não sei.
Mas sinto a tua falta.
Olhava para o tecto, como tantas vezes faço quando, ainda antes de dormir ou levantar, preciso de me pôr em ordem, e pus-me a contar. Foram 13.
Parece de alguma forma um número simbólico, mas todos os números pequenos compensam a magreza com uma barriga cheia de significados. Insignificantes.
Não é aqui na cama que sinto a tua falta. Pelo menos não quando me deito. Uma vez dormimos juntos e, como certamente te lembrarás, descobrimos que os nossos sonos não se uniam como nós. Os corpos sim. Decididamente feitos um para o outro, a encaixarem como Lego. Mas não no sono. Nem nos sonhos, provavelmente. Que raio foste tu fazer para a Índia só Deus sabe, e a mim não me interessa.
Tal como não me interessou saber quem eras. Porque lias Camus. Porque deixavas que as tuas roupas se empilhassem nas cadeiras sem se distinguir já o sujo do limpo. Porque enfileiravas na beira da banheira um exército de embalagens de litro de gel de banho. Não. Nunca quis saber quem era essa pessoa.
Talvez porque, logo naquela primeira vez, assim que nos despimos e os nossos corpos se encontraram, eu tenha ficado a saber tudo o que importava saber sobre ti. A tua generosidade. E a bondade. Estava na tua pele, nos teus gestos, e era isso que tornava difícil largar-te o corpo, largar-te a boca, parar os beijos. Eu, tu. Nós. Atados um ao outro, a prolongar aquilo, a troca de fôlegos, a mistura das peles. Até a tensa contenção se quebrar e termos mesmo de nos derramar por cima um do outro. Até irmos rir para o duche e atirar água para os corpos. Gargarejar. E dar bom uso àqueles litros de gel de banho que o outro desconhecido tu comprava em mercearias de esquina, lojas de desconto. Exotic Sunshine. Eternal Spring. Brisa del Mar. Manzanas Verdes. Nomes mais teus do que o teu, de que nem me lembraria não fosse tê-lo escrito num pedacinho de papel, por cima do teu numero de telefone.
Ainda te tentei ligar depois daquela última vez em que me disseste que ias viver para a Índia. Bizarro. Ninguém se muda para a Índia. E no entanto, esse tipo que eras e que nunca me interessou conhecer, foi para lá de certeza porque nunca mais atendeste o telefone.
Azar o meu.
Não foram muitas as vezes que te vi.
Em que estivemos juntos.
E que importa isso?
Não sei.
Mas sinto a tua falta.
Olhava para o tecto, como tantas vezes faço quando, ainda antes de dormir ou levantar, preciso de me pôr em ordem, e pus-me a contar. Foram 13.
Parece de alguma forma um número simbólico, mas todos os números pequenos compensam a magreza com uma barriga cheia de significados. Insignificantes.
Não é aqui na cama que sinto a tua falta. Pelo menos não quando me deito. Uma vez dormimos juntos e, como certamente te lembrarás, descobrimos que os nossos sonos não se uniam como nós. Os corpos sim. Decididamente feitos um para o outro, a encaixarem como Lego. Mas não no sono. Nem nos sonhos, provavelmente. Que raio foste tu fazer para a Índia só Deus sabe, e a mim não me interessa.
Tal como não me interessou saber quem eras. Porque lias Camus. Porque deixavas que as tuas roupas se empilhassem nas cadeiras sem se distinguir já o sujo do limpo. Porque enfileiravas na beira da banheira um exército de embalagens de litro de gel de banho. Não. Nunca quis saber quem era essa pessoa.
Talvez porque, logo naquela primeira vez, assim que nos despimos e os nossos corpos se encontraram, eu tenha ficado a saber tudo o que importava saber sobre ti. A tua generosidade. E a bondade. Estava na tua pele, nos teus gestos, e era isso que tornava difícil largar-te o corpo, largar-te a boca, parar os beijos. Eu, tu. Nós. Atados um ao outro, a prolongar aquilo, a troca de fôlegos, a mistura das peles. Até a tensa contenção se quebrar e termos mesmo de nos derramar por cima um do outro. Até irmos rir para o duche e atirar água para os corpos. Gargarejar. E dar bom uso àqueles litros de gel de banho que o outro desconhecido tu comprava em mercearias de esquina, lojas de desconto. Exotic Sunshine. Eternal Spring. Brisa del Mar. Manzanas Verdes. Nomes mais teus do que o teu, de que nem me lembraria não fosse tê-lo escrito num pedacinho de papel, por cima do teu numero de telefone.
Ainda te tentei ligar depois daquela última vez em que me disseste que ias viver para a Índia. Bizarro. Ninguém se muda para a Índia. E no entanto, esse tipo que eras e que nunca me interessou conhecer, foi para lá de certeza porque nunca mais atendeste o telefone.
Azar o meu.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Dois Amantes
Entrou-me a meio da vida, suavemente. Fausto. De boas famílias, educado. Quando se sentava à mesa de um restaurante, saiam-lhe os pedidos com voz funda e articulada, como se tivesse sido já tinta pela idade. Tinha qualquer coisa de solene. O mundo pesava-lhe nos ombros por suportar, com pudor calejado, olhares curiosos. Na verdade, só há pouco deixara a adolescência mas vinha despido de pêlos, o corpo marcado a seda pela crueldade do cobalto. Não lhe chamaria adulto, simplesmente portava-se com a calma de quem toma a morte por certa e não se apressa.
Escorregou como leite para os meus lençóis. No branco era branco. Nádegas lisas e alvas como ovos, escroto limpo e um órgão quase triste mas que se erguia com o mesmo porte majestoso que se via nele, Fausto, quando a gente na rua lhe marcava a calvice absoluta, a elegância simples de ser só jovem pele.
Por mais que o quisesse manter protegido no meu abraço, foi-se perdendo de mim em jogos de família, cenas de hospital.
O acaso seguinte trouxe o seu oposto. Carlos era médico e, quando se desembrulhava de roupas, era oferta de selva onde Fausto fora deserto. O pénis erguia-se-lhe com a doce curva de um coqueiro saindo do mato, nascente secreta do veludo que lhe cobria exaustivamente o corpo e só lhe dava descanso algures a meio das costas, tornando raras as plantas dos pés, as palmas das mãos. Mergulhado na água, o seu corpo era banco de coral, os cabelos seguindo o sabor da maré. Faziam desenhos tribais depois, quando saía para o sol, numa crescente rebeldia contra o sal, secos ao vento.
Onde Fausto deslizava, Carlos raspava, a barba agreste marcando-me a pele, ferindo-me o beijo. Corpo mistério intenso, viciante. Foi uma separação difícil, ruidosa, doída. Veludo que se tornara velcro que se tornara lixa.
Dois amantes. E eu, quando olho para mim, vejo que continuo a ter as cicatrizes da selva, as miragens e alucinações do deserto, impressas no ser, cantando como sereias quando me apanham sozinho numa noite qualquer, ao acaso, nesta cidade.
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