sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Feliz - 7 (fim)

Carlos não dorme. Um segredo para existir tem de ser partilhado com alguém. Coisas que não se contam não existem e a cena da casa de banho foi demasiado intensa para que a remeta para o esquecimento. Tenta pensar em alguém a quem possa contar o episódio, o encontro imediato com o rapaz do desodorizante, como lhe chama na sua cabeça. É aí que faz também uma lista de nomes e não se lembra de ninguém a quem possa contar uma coisa destas. Paulo, que dorme ao seu lado, é ainda o seu melhor amigo, o mais íntimo, mas o casamento tem regras. Para os outros a mesma coisa. Carlos passou a ser uma parte da entidade Carlos+Paulo. 2 que passaram a ser 1.
É a primeira vez que se apercebe do sucesso da união, de como todos os amigos de Carlos são primeiro que tudo amigos de Carlos+Paulo e que não é possível minar essa entidade com 1 segredo que pede uma divisão, uma tomada de partido.
Depois de 5 anos de casamento, Carlos repara que está de novo sózinho, com 1 segredo fechado dentro de si que não se atreve a deixar sair. E, em vez de ser incómodo, é apenas uma sensação familiar, um regresso ao tempo em que tudo era anónimo e nada se partilhava. Até há 5 anos atrás ele vivia assim... e conseguia ser, lembra-se, apesar de tudo, relativamente feliz.
A seu lado, Paulo dorme. Ele permanece acordado. O seu truque para adormecer é contar em ordem decrescente. Faz isso desde a escola primária. Quando a mente se lhe complica recorre aos números. E números às avessas são ainda mais abstractos.
Começa com o 9. Depois o 8.
E depois põe-se a comparar a sua felicidade e satisfação pessoal com a de outras pessoas: a de Cláudia, 7, a de Marcos e Celeste, 6, a do sorridente senhor Li do restaurante da esquina, 5, a do hermafrodita amigo do amigo do Paulo, 4, a das pessoas dentro dos carros nos engarrafamentos, 3, a dos refugiados palestinianos, 2, a das crianças a morrer de fome em África...
Mas a felicidade não se pode prender num número que permita depois fazer contas, estatísticas, comparações. Por isso, antes de concluir alguma coisa, adormece.
É então que se sente a flutuar, a subir como se, por simples vontade, se libertasse da gravidade. Olha para baixo e vê-se a si próprio deitado, dormindo, abraçado a Paulo. 2 feitos 1.
Sente agora as costas contra o tecto do quarto, o que lhe impede a ascenção descontrolada que começou por sentir. Tem pena de não subir mais. Sabe que lá fora o céu está cheio de estrelas, incontáveis, mas deixa-se ficar ali, satisfeito, talvez até feliz, a sonhar aquele abraço até a sua consciência se anular e o sono se tornar finalmente simples, total, negro e profundo.

2 comentários:

H. disse...

Gostei muito... principalmente pelas personagens serem familiares (nomes portugueses, Lisboa, ...)

luís disse...

Gostei especialmente da primeira metade.